sábado, 14 de junho de 2008

Discurso proferido na Sessão Solene da Assembleia Municipal
DIA DO MUNICÍPIO - 13 DE JUNHO 2008

Estarreja vive hoje, uma vez mais, o seu Feriado Municipal, o dia do município, comemorado, como é da tradição, no dia de Santo António, o seu padroeiro.
Santo António, nascido em Lisboa em meados do século XII com o nome de Fernando, é filho de uma fidalga, D. Teresa Tavera, natural de Castelo de Paiva, sabendo-se, também, que seu pai, Martin ou Martins de Bulhões, nasceu, provavelmente, ali bem perto, talvez naquilo que hoje é o distrito de Aveiro.
Não será, certamente, pelas razões de proximidade geográfica do sangue dos seus antepassados que Santo António é hoje o padroeiro de Estarreja. Se-lo-á, mais, pelo carácter de universalidade que soube cultivar em vida e que lhe conferiu o estatuto de personagem marcante da história da igreja católica e da história do pensamento medieval.
Fernando de Bulhões – ou Santo António - é, de facto, um exemplo de alguém que sabia o que queria, que não teve receio de tomar decisões sobre as opções de vida que se lhe depararam e, mais do que tudo, não teve pejo em expressar as suas ideias e em deixar bem vincado o seu pensamento, cujas linhas se estendem até aos nossos dias.
Foi a esta personalidade, um português universalmente reconhecido, que Estarreja dedicou simbolicamente o seu dia municipal, certamente na esperança de que o exemplo do seu carácter, da sua eloquência e, sobretudo, da sua coragem, pudessem ser para todos nós, a cada momento, um motivo de inspiração.

Mas se é hoje actual o exemplo da moral e do carácter de Santo António, é já outro o tempo. E a realidade difere em quase todos os domínios.
Vivemos um tempo estranho, tolhido por acontecimentos internacionais que se repercutem directamente nas nossas vidas. Ao mesmo tempo, vivemos um tempo de individualismo e de egoísmo exacerbados, onde há gente que parece fazer gala em não ver para lá do imediato. Do que é fácil. Onde se desconfia de tudo e de todos, sem sabermos muito bem distinguir o trigo do joio. Parece que tudo o que implique algum esforço e dedicação cansa muita gente à partida. Por isso, vivemos um tempo de palavras vãs, de incompreensão e, sobretudo, de demagogias fáceis e de populismos estéreis de progresso, cujo prejuízo acabará por desembocar – caso não se altere - nas gerações do futuro, que são, como se sabe, as gerações dos nossos filhos.

Minhas Senhoras e meus senhores
Esta cerimónia decorre no seio de um órgão político.
Neste momento, muitos dos que me ouvem, estarão a associar política ao que de pior existe na sociedade. É assim que os políticos são olhados por muitos cidadãos: com desconfiança. E muitos, fazendo lembrar Judas, até negam a sua qualidade de políticos quando confrontados com ela, concerteza olhando para a sua própria prática.
Há, concerteza, políticos menos bons, tal como há portugueses menos bons. Há, concerteza, políticos corruptos, tal como há portugueses corruptos. Mas como me dizia uma pessoa que nasceu com talento para a política, há dias: “A preocupação de todos deve ser a sociedade, que é a causa, e não a classe política, que é o seu triste efeito.”
Para que a classe política seja melhor, todos temos de ser melhor. Mais interessados, mais participativos, mais interventivos. Só com esclarecimento é que se pode saber escolher.
O desempenho de cargos políticos é uma tarefa nobre, que resulta dos valores democráticos, assentes naquilo que foi e é a evolução histórica dos modelos da nossa sociedade. Mas é preciso distinguir os políticos.
E estar na política é ter coragem. Desempenhar cargos políticos é não ter medo da verdade expressa nas opiniões e nos actos ditados pelas consciências sãs, mesmo que nos ofendam, mesmos que nos mandem cartas anónimas, mesmo que nos ameacem. Só quem é livre deve andar na política.
Tenhamos, pois, todos os que aqui estão, de assumir com coragem e de olhos bem elevados os cargos para os quais fomos democraticamente eleitos e saibamos desempenhá-los sem trairmos as nossas consciências.
Saibamos decidir, saibamos tomar decisões e saibamos, sempre, ter o bem comum e o desenvolvimento da nossa terra no horizonte.
Saibamos todos honrarmo-nos com a escolha dos eleitores e sermos dela dignos. Quem não está de bem com Democracia, não deve dela fazer uso.
Para sermos dignos das escolhas populares temos de ser dignos de nós próprios. Temos de ser sérios, honestos e empenhados. Temos de ser frontais, corajosos e lutadores, em prol das ideias de progresso e de desenvolvimento, nas quais acreditamos.
A história universal e, em particular, a história do nosso país, está pejada de grandes exemplos de gente que soube e ousou lutar pelo que acreditava. Mas está igualmente cheia de “velhos do Restelo”, que sempre encararam o futuro com desconfiança e com o receio de quem teme os ventos da mudança, que se habituaram a ver as oportunidades como uma ameaça, talvez por receio de não saberem como as agarrar. Mas, como diz o ditado, “dos fracos não reza a história”.

Meus Senhores e Minhas Senhoras
O Senhor Presidente da República, no seu recente discurso comemorativo do 10 de Junho, insistiu na necessidade de os portugueses serem "exigentes e rigorosos", para ajudarem o país a vencer as dificuldades.
Creio que a expressão dessa exortação por parte de uma figura como o Senhor Presidente da República, não pode deixar de constituir um momento de reflexão, um exame de consciência e – quem sabe – um mote para uma nova atitude geral perante a vida.

Exigência e rigor. Eis como duas palavras sintetizam tão bem aquela que deve ser a postura não só do político empenhado, como a do cidadão interessado.

Comecemos, então, todos, a sermos mais exigentes para com o nosso próprio futuro e para com o futuro de Estarreja. Tenhamos a ambição e a coragem de nos deixarmos da pequenez fútil e saibamos partir para grandes conquistas. Para aquilo que realmente nos interessa e que nos pode tornar grandes.
Tenhamos a capacidade e a visão para apostar fortemente no engrandecimento de Estarreja, através de projectos que nos elevem social e economicamente. Saibamos aproveitar e ser dignos das oportunidades que se nos deparem, não perdendo oportunidades económicas, para não acabarmos a ver outros municípios colherem os frutos de certas incompetências e de certas inabilidades locais.
Invertam-se retrocessos culturais e aposte-se decididamente na educação, na cultura, na acção social e na qualidade de vida da população, como factores de desenvolvimento, de animação e de confiança social.
É preciso um município ao serviço das pessoas, que não definhe diariamente, mas onde se sinta vida e pujança.

Minhas Senhoras e meus Senhores
Neste dia de festa, entendeu a Câmara prestar, igualmente, homenagens.
Nada tendo a apontar às homenagens desta sessão – aproveitando para daqui enviar uma palavra de saudações e felicitações aos homenageados – gostaria, no entanto, de recordar muitos outros estarrejenses que, provavelmente, se sentirão injustiçados pelo facto de ainda não terem visto publicamente reconhecido o seu mérito e o seu trabalho.
À luz daquilo que é perceptível no actual critério das distinções, estou a pensar em muita gente anónima ou nem tanto, que são, tantas vezes, esquecidos ou ignorados, talvez porque não têm a capacidade financeira de outros, para quem a ajuda assume a naturalidade de uma mera assinatura num cheque.
Permitam-me que lembre as muitas colectividades do município de Estarreja – nos diversos campos desportivos, culturais, recreativos ou sociais – que prestam um impagável serviço à comunidade e cuja existência é alimentada pelo sacrifício pessoal de muitos dirigentes, alguns deles há décadas no comando diário dessas instituições, gratuitamente, sem nada receberem em troca, com muitos prejuízos pessoais, que trabalham em prol de todos e para todos, e tantas vezes criticados por outros que nada fazem para além de si próprios.
Permitam-me também que vos recorde outros estarrejenses ilustres que, graças ao esforço do seu trabalho e com as suas empresas sedeadas no município de Estarreja, onde pagam os seus impostos, vão contribuindo para o desenvolvimento económico, empresarial e social desta terra e que, para além disso, têm sabido generosamente alimentar a dinâmica associativa do concelho, ao longo de anos, auxiliando com donativos e contributos materiais e pessoais.
Permitam-se, assim, que aqui os recorde, sem que lhes revele o nome, na esperança de que, numa terra que não é assim tão grande, todos tenhamos consciência da sua importância e possamos, em consciência, neste momento, prestar-lhes a homenagem da nossa lembrança silenciosa, na esperança de, numa próxima ocasião, o possamos fazer de viva voz, como é de justiça.

Como em tudo o resto, também nas nossas homenagens – apesar do assunto ser sempre discutível e de grande sensibilidade – devemos ser rigorosos e exigentes.

Hoje, homenageamos os atletas de Estarreja, que conseguiram obter bons resultados a nível nacional. É um orgulho ver cada um deles, trabalhar, esforçar-se e acreditar que pode superar-se a si próprio e atingir novas metas. Cada um de vós é um símbolo de Estarreja. Por isso, peço-vos que, sempre que tiverem oportunidade, façam saber que são de Estarreja. Não é só dizer que são do Distrito de Aveiro… É muito importante que o nome de uma terra como a nossa, que nem sempre goza da melhor reputação, seja associado a nível nacional a pessoas dedicadas, competentes, trabalhadores e vencedoras, como o são cada um de vocês. Gente sem medo de fazer mais e melhor. Gente com ambição. Que não se contenta com pouco, mas que aspira sempre a mais. De cada vez que um dos nossos atletas aparece aos olhos do país assumindo que é de Estarreja, faz passar uma boa imagem do concelho. E isso é essencial para a mudança de imagem de uma terra. Parabéns a cada um.

Revendo-nos na grandeza daquilo que nos é próximo, permitam-me, particularizar, para enviar uma calorosa palavra de apreço ao Clube Pardilhoense, pelos seus 100 anos de vida. Como alguém que me é próximo disse, num artigo escrito para um jornal local, “a riqueza cultural e associativa de Pardilhó é inquestionável, mas o Clube Pardilhoense – que me perdoem as associações mais jovens – parece-me, aos olhos de hoje, a matriz genética de tudo o que actualmente de bom se faz nessa terra”.
A declaração de Utilidade Pública, já publicada em Diário da República em Março último, reflecte a opinião do Estado, face aos “relevantes serviços” que o clube presta à comunidade.
Manter viva uma colectividade durante 100 anos, com vigor e com pujança, não foi concerteza tarefa fácil. Por isso, faço votos para que neste ano de comemoração e alegria, cada um dos seus membros, encontre nesta data, uma fonte de inspiração para todos os momentos menos bons que fazem parte da vida de todos e também das colectividades.
Os meus sinceros parabéns ao Pardilhoense e a todos os seus notáveis dirigentes.

Minhas Senhoras e Meus Senhores
É pois, nesta data de grande significado, que vos proponho uma reflexão crítica e exigente sobre a tarefa que temos em mãos.
Não aceitemos - e sei que os estarrejenses não aceitam - uma terra adiada ou conformada, e, menos ainda, uma qualquer existência apagada, ou meros actos inócuos de fachada. Não aceitemos a ausência de futuro.
Não nos conformemos. Não nos resignemos. Sejamos, como exortou o Presidente da República, mais exigentes e rigorosos na conduta, nos desejos e na vontade de fazer bem aquilo a que nos propomos.
A democracia portuguesa, que é liberdade, pluralismo e Estado de Direito, não deve deixar de ser também solidariedade, justiça, modernização e desenvolvimento. E para isso temos que ousar ser diferentes e temos que assumir com coragem a vontade de sermos melhores.

Nesta altura de Festa, não nos podemos esquecer da responsabilidade que a todos nos cabe perante a nossa terra, perante os estarrejenses actuais mas, sobretudo, perante os estarrejenses das gerações futuras.
Tudo isto, se quisermos que esta seja uma terra com futuro, uma terra de muitos 13 de Junho, festejados e celebrados na alegria, na felicidade e no orgulho nosso e dos nossos filhos.

Marisa Macedo
Estarreja, 13 de Junho de 2008