quarta-feira, 21 de maio de 2008

OPINIÃO

PARA NÃO FICARMOS, MAIS UMA VEZ, A VER PASSAR OS COMBOIOS…

Nem o Dr. Durão Barroso, nem o Dr. Pedro Santana Lopes, nem o Eng. Sócrates perguntaram qual a opinião das pessoas que exercem cargos políticos em Estarreja sobre o projecto do TGV. Se me tivessem perguntado, eu, olhando apenas para os traçados em discussão, de imediato, responderia: obviamente, sou contra.

Acontece que não perguntaram, nem tinham de perguntar, pelo que a resposta de Estarreja não se pode ficar por um simples “Estamos contra”. Isso é fácil de dizer. Mas se nos ficarmos por aí, temo que o comboio nos passe por cima na mesma, sem que Estarreja tire disso qualquer vantagem.

De nada nos adianta estar contra a construção do TGV no país. Mas podemos ter influência na definição dos traçados e nas medidas compensatórias, se soubermos ser lideres.

É bom que aprendamos com o que a nossa história recente nos ensina. O que é que Estarreja beneficiou com o facto do Presidente da Câmara ser contra o traçado do IC1? O IC1 está a ser construído exactamente pelo sítio inicialmente previsto; a sua suspensão durante o governo Durão Barroso/Paulo Portas/Santana Lopes custou 250 milhões de euros ao país e Estarreja não retirou disso qualquer benefício, para além do Presidente José Eduardo Matos nem sequer ter conseguido garantir os nós de acesso necessários ao concelho. Um desastre político completo, portanto. Todos perdemos.

E quem não se recorda da famosa Incineradora? Tínhamos o Prof. Cavaco Silva e o Governo PSD a querer instalar a primeira unidade em Portugal; todo o país a recusá-la no meio de algum histerismo e o Dr. Vladimiro a aceitar a sua construção em Estarreja, mas com condições. Resultado: a incineradora não foi construída; Estarreja ficou com o Cine-Teatro, com a Biblioteca, com a Escola Básica Padre Donaciano, com um novo quartel da GNR, etc; o lixo que pretensamente seria tratado na incineradora contínua por aí, algum dele a poluir o ambiente, estando finalmente a aparecer a solução jurídica final da longa marcha dos processos judiciais. Resultado: 14 anos depois, só Estarreja beneficiou com a questão da Incineradora.

Bem sei que a história não se repete. Até porque há políticos que fazem a diferença quando confrontados com a circunstância concreta que têm de decidir, por terem sido eleitos para governar. Sei também que não se pode esperar grande coisa de alguém que se arrasta em lamentos, há anos, por causa de “obras faraónicas” como a Rua das Patas… Quem considera um imbróglio a marcante Rua das Patas, como há-de resolver o TGV?! Claro que, para essas pessoas, mais vale dizer que estão contra e que ninguém lhes pergunte mais nada, não vá alguém notar que as ideias nem precisaram do TGV para, há muito, terem desaparecido da governação local a alta velocidade.

Ser contra não evita, nem minimiza, os impactos que a futura e inevitável passagem do TGV terá em Estarreja.

O PS local defende – e eu também - que, nesta fase, em que ainda muita coisa está por decidir quanto à localização do traçado, o Governo deve ser confrontado com uma posição forte, que reflicta o que Estarreja pretende e quais as soluções que não só minimizem os danos, mas que também compensem verdadeiramente os prejuízos.

E já que vamos ter a passagem do TGV, porque não lutar para ter a futura estação de Aveiro em território de Estarreja, ou o mais perto possível de Estarreja? É que esta questão não está ainda definida e há muita movimentação política de alguns presidentes de Câmara - que não o nosso claro -, para atrair esta estrutura para o concelho respectivo.

E querer a estação não significa que o PS prefira o traçado “mais gravoso” a “poente da AutoEstrada”, como o PSD insiste em fazer crer. É que tudo isto ainda pode ser discutido, com ideias e uma liderança afirmada. O que não pode ser já discutido é a existência e a construção do TGV em si. Essa discussão já passou há muito e nessa altura o Presidente da Câmara de Estarreja não se lembrou, não quis saber ou não teve a visão política que se impunha para tratar do assunto. Por isso é que o ser contra está completamente desfasado do tempo.

Já agora vale a pena pensar porque é que tantos autarcas – que não o nosso claro, que participa em inaugurações de apeadeiros, mas não conseguiu impedir que os intercidades deixassem de parar em Estarreja, para não falar dos Alfas…– têm reclamado estações ferroviárias ao longo do tempo para os seus concelhos. Por exemplo, aquando da construção da Linha do Norte, Águeda e Aveiro disputavam a estação principal. Ganhou Aveiro. Hoje, Águeda é uma cidade interessante, mas Aveiro é que é a capital do distrito.

A estação do TGV, ao absorver a ligação ao eixo de alta velocidade entre Salamanca e Aveiro (fazendo desta estação uma das entradas de Espanha no nosso país) pode ser uma extraordinária oportunidade de desenvolvimento para Estarreja.

Se o TGV for mesmo construído, a viagem Porto-Lisboa vai demorar cerca de 1 hora e quinze. Estarreja ficará a uma hora de Lisboa. Quem mora hoje nos arredores da capital demora mais do que isso para chegar aos seus empregos diariamente. Há quem diga que os bilhetes vão ser caros. Não sei. Mas não me parece que haja um qualquer Governo, de um qualquer partido, que queira ver o comboio a passar vazio. Sejamos, portanto, razoáveis.

Se vamos ter inúmeros prejuízos, temos de lutar para que cada Estarrejense afectado fique melhor do que o que estava e para que Estarreja retire todos os benefícios possíveis de mais esta invasão nacional ao nosso território. Sejamos, por isso, racionais.

Era melhor para todos que não ficássemos apenas a ver passar os comboios.

Uma nota final para dizer que, apesar desta matéria não ser da competência da Assembleia da República, não é por isso que me tenho poupado nos esforços.

Estarreja, 13 de Maio de 2008
Marisa Macedo