domingo, 2 de março de 2008

OPINIÃO
Os políticos não são todos iguais

Há algumas semanas, num encontro que decorreu numa escola do nosso distrito, a determinada altura, um professor interveio contra os políticos em geral. A inúmera assistência constituída por jovens aplaudiu. O Presidente da Câmara local, negou a sua qualidade de político dizendo que “está emprestado à política” e sublinhando que é “um mero técnico da política”, porque isto de enfrentar multidões não é para qualquer um. A assistência aplaudiu também. Mas estava outro político na mesa, desses que gostam do que fazem, que se empenham, que também cometem erros – é certo -, mas que andam de cabeça levantada e que, talvez por isso, decidiu intervir. Explicou, alto e bom som, porque é que se dedica à política, para que serve a política e como se pode transformar para melhor a terra de cada um, através da política, desde que os políticos sejam competentes. A assistência aplaudiu e, pasme-se, quis saber mais.
Confesso que me faz muita confusão esta atitude dos políticos de dar a outra face, quando lhes “batem”. Parece que a política é uma actividade vergonhosa. Depois as pessoas não acreditam nos políticos. Acho natural. Não só pelas promessas não cumpridas. Quem é que acredita num carpinteiro, se lhe dissermos que ele é péssimo e ele, em vez de se defender, responder que não é carpinteiro, que está na carpintaria por empréstimo e que é um mero “técnico de carpintaria”?
Agora surge o Bastonário da Ordem dos Advogados a dizer o que toda a gente suspeita. A esmagadora maioria das pessoas com quem tenho falado acredita. Os comentadores dividem-se, não contra a matéria em si, mas sobre se o Bastonário devia, ou não, dizer o que disse. Muitos exigem provas. O Presidente da República recebe o Bastonário e parece dar cobertura à tese da existência de corrupção na política.
O que me inquieta nesta história toda é o motivo pelo qual tanto o Sr. Bastonário como o Sr. Presidente da República, se suspeitam de algo de errado, não apresentam queixa às autoridades judiciais? Será que não acreditam na justiça?
E mais ainda: porque é que as autoridades judiciais não abrem inquéritos na sequência das notícias que são publicadas nos jornais, já que nos ensinam na faculdade que qualquer autoridade tem o dever de instaurar um inquérito desde que tenha notícia de um possível crime? Sem que seja sequer preciso haver denúncia. Sem que seja preciso, portanto, a entrega imediata de provas.
Só em Estarreja, sabemos que foram denunciados publicamente (ou pelo Partido Socialista, ou por jornais, ou por particulares) casos a merecer investigação: desde os camiões da câmara a depositar lixo num terreno de um Presidente da Junta, em plena Zona de Protecção Especial da Ria de Aveiro; desde a deposição de lamas pela empresa “Terra Fértil” em Canelas; desde as construções ilegais que estão no Parque Industrial; desde as areias que foram levadas deste parque, perante a passividade do Sr. Presidente da Câmara…
O que aconteceu até hoje? O IGAT envia cartas à Câmara para que responda a “alhos” e esta responde com “bogalhos”. E lá vai passando o tempo… sem que quem devia investigar, venha de facto investigar.
O Ministério Público arquivou a queixa das areias, cujo preço dava para pagar mais de metade do custo inicial das obras do Parque Industrial, apesar de concluir que há indícios de crime, uma vez que a areia saiu do parque em camiões com matrículas falsas, à vista de todos. Perante uma investigação lamentável e o silêncio do Presidente da Câmara Municipal de Estarreja, a Drª Maria José Morgado mandou reabrir o processo, depois da intervenção do PS. No outro dia passei no local para onde vimos que parte da nossa areia foi levada. Não falta nada para ter uma urbanização em cima.
De que serve, então, denunciar? Mais: entre o que o Partido Socialista afirma que se passa em Estarreja e o Dr. Marinho e Pinto, há uma diferença. Ele diz que não tem provas. O PS já disse ter. Por incrível que pareça, só após a intervenção da Drª Maria José Morgado é que as mesmas foram pedidas. Anos depois dos factos ocorridos.
Se as investigações fossem rápidas e eficazes, é muito provável que fosse mais fácil perceber onde existe corrupção e outros actos criminosos. E quem os praticou.
É que os políticos não são todos iguais, há quem não deva nada a ninguém, não esteja refém de qualquer interesse e não tenha telhados de vidro. É a estes que convém um sistema de justiça eficaz e credível. Aos outros, convém-lhes lançar tudo e todos na suspeição, de forma a que as pessoas pensem o que estão a pensar: que “os políticos são todos corruptos” e a “política não serve para nada de útil”. Assim, somos todos culpados, o que é o mesmo de não haver nenhum condenado.
O que está a acontecer afecta o crédito do poder político e do poder judicial, o que, no limite, pode ferir de morte a democracia e o sistema democrático. A história diz-nos que a alternativa é a ditadura ou a anarquia e nenhum destes é melhor do que o regime que actualmente temos.
O que todos precisamos é que quem pratica crimes seja condenado pelos tribunais, sem que a culpa morra solteira. Precisamos, mais do que de leis, de pessoas com vocação para a política, com valores e com ética. Não precisamos de santos. Só de pessoas honestas, competentes, com ideias válidas e lutadoras.E precisamos de um povo instruído, que perceba quem serve e quem não serve. Precisamos de um povo que não se deixe iludir apenas com sorrisos e palmadinhas nas costas.

Marisa Macedo
Presidente da Comissão Política do Partido Socialista de Estarreja