quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

OPINIÃO
O doce sabor de ter direito a cair

Ser líder da oposição em Estarreja não é tarefa fácil, mas é engraçado.
Digamos que é preciso gostar.
Certas pessoas do PSD colocam toda a sua energia a passar de mim uma imagem negativa, desde mal educada, a que não sou apoiada pelos militantes e simpatizantes do Partido Socialista nas posições que defendo, acusando-me de não preparar as matérias sobre as quais intervenho, a outros "mimos" de igual significado.
Acontece que quando me candidatei a líder do PS de Estarreja, já sabia ao que vinha. Sabia principalmente que se os dirigentes do PSD começassem a dizer bem de mim, é porque consideravam que não lhes fazia frente, porque sei que quem está hoje no poder só persegue quem entende que lhe faz sombra. Por isso é que o Dr. José Eduardo só apresentava queixas contra o Dr. Vladimiro Silva e contra o Fernando Mendonça.
Assim, quando me candidatei à liderança do PS, um dos meus objectivos é que os dirigentes do PSD local desatassem a dizer mal de mim. O Dr. José Eduardo só elogia quem sabe que não lhe faz qualquer espécie de sombra. É vê-lo nas Assembleias Municipais a dizer bem da actuação da CDU. E é ver a CDU a dizer bem do Dr. José Eduardo. Aliás, acho até que temos os comunistas mais alaranjados do país... Acontece que o objectivo que traçamos para o PS de Estarreja não é a sombra. É uma clara oposição. Estamos a conseguir.
Por isto, acho lisonjeiro a atenção com que seguem o que vamos fazendo e dizendo. Na última assembleia municipal, as primeiras intervenções dos membros do PSD abordaram a minha pessoa. Ninguém diria que o principal assunto era o orçamento para 2008.
Um deles quase "espumava" por causa de umas afirmações que fiz sobre o autocarro que a Câmara vai comprar à Santa Casa, por um preço proposto por ele mesmo enquanto funcionário da empresa avaliadora, funções que acumula com o de membro da Santa Casa e membro da Assembleia Municipal. Negócio claríssimo, portanto.
Bradava ele que tudo era perfeitamente claro, eu é que era a má da fita. E eu pedi, mais uma vez, as contas do projecto onde este negócio se insere, ou seja, as contas de "Projecto Família" que envolvem cem mil contos, o Estado, a Câmara, a Santa Casa e outros parceiros. Pedir contas e exigir clareza nos negócios públicos é colocar a honra de alguém em causa? A mim, nunca ninguém precisou de me pedir contas, porque onde quer que me envolva sou a primeira a apresentá-las.
A seguir veio outro PSD, que há tempos passou por cima do anterior líder da bancada e do actual presidente da Comissão Política daquele partido, acusar-me de falta de rigor e de não estudar os assuntos sobre os quais intervenho. Claro que pedi para me defender. O Presidente da Assembleia Municipal, Dr. Alcides Sá Esteves, não me concedeu a palavra, por entender que aquelas acusações não eram ofensivas. Compreendo que nem todos nos ofendamos com as mesmas coisas. Depende do que cada um exige a si próprio também.
Assim fiquei eu, acusada de falta de rigor e de não estudar, impedida de demonstrar em breves minutos o contrário, com três ou quatro exemplos práticos, ao menos para constar da acta.
O certo é que o que escrevo nunca é desmentido e, por isso, é que a Coligação tenta fazer o que pode para me cortar a palavra. Mas eu é que tenho mau feitio...
No meio destas questiúnculas, ainda houve tempo do presidente da Comissão Política do PSD também se dirigir à minha pessoa, já não sei bem em que termos, porque fá-lo constantemente e já o considero membro do meu “clube de fãs”. Lamentavelmente, até o PSD mostra por ele um certo desrespeito, embora eu preferisse que os meus “fãs” fossem todos respeitáveis!
Como estamos no final do ano, época de balanços, penso que isto é bem demonstrativo do estado do actual poder em Estarreja. Está moribundo. O Dr. José Eduardo está a fazer o que pode para sair daqui o mais depressa possível e não há qualquer discussão sobre política local, não só porque não se permite que a oposição tenha tempo para intervir, como não há projectos, ideias, rumos que sejam entusiasmantes e discutíveis. Estamos todos à espera de 2009.
Isto é lamentável porque, apesar de nem sempre ser claro, Estarreja tem gente do melhor que há no país. Por exemplo, a minha primeira intervenção na Assembleia da República versou uma matéria de investigação da maternidade e da paternidade, que levanta várias questões. Uma delas, é a procriação medicamente assistida. Sabem que uma das pessoas que lidera a nível nacional este assunto é precisamente o Dr. Vladimiro Jorge Silva, filho do anterior Presidente da Câmara? Sabem que foi com base nos estudos que está a desenvolver, que o Governo decidiu apoiar os tratamentos dos casais com problemas de infertilidade, já a partir do ano que vem? Claro que fiquei orgulhosa, como penso que todos deveríamos ficar quando um de nós faz algo de notável.
Outra das questões que se prendem com a minha intervenção tem a ver com a bioética. Sabem que uma das pessoas que mais tem conhecimentos sobre esta questão está a viver em Estarreja? Claro que fico orgulhosa.
São exemplos destes que nos devem motivar. São pessoas como estas, dedicadas, interventivas, com opiniões, que devemos realçar. Gente que não vive de lamúrias e de dores de cotovelo. Gente que faz e que não se deixa ir morrendo, lenta e diariamente, a remoer no que poderia ter feito, invejando tudo e todos que fazem alguma coisa. É com gente boa, arejada, com ideias, capaz e honesta, que é possível fazer do país e de Estarreja um lugar melhor.
O tal senhor que "espumava" na Assembleia Municipal, no auge da sua quase apoplexia, disse mais ou menos, que eu algum dia havia de cair e que a queda é tanto mais alta, quanto o lugar que se atinge.
Para o sossegar – a ele e a todos os outros que me dedicam muito dos seus pensamentos -, digo-lhes que de facto, o mais provável, é que algum dia eu caia. Garanto-lhes é que será sempre de pé. E se cair, o máximo que me acontece é limitar a minha vida ao concelho de Estarreja, o que não considero nenhuma desgraça, porque gosto muito disto.
Neste meu balanço de 2007, uma das reflexões que faço é que ganhei o direito a cair. Ao ter sido “convocada” para o que considero ser a selecção nacional da política, ganhei o direito a cair. Há, de facto, quem nunca caia. Esses são normalmente, aqueles senhores que se têm sempre em grande conta, que se julgam muito importantes, mas que nunca foram capazes de levantar voo para coisa nenhuma... Deus me livre de semelhante destino! Prefiro cair, estatelar-me mesmo, do que passar a vida a rastejar, sem ter feito nada de relevante e julgando-me um supra-sumo de qualquer coisa, parecida com coisa nenhuma.
Cair – desde que com estilo – será sempre bem mais interessante!

Marisa Macedo
Presidente da Comissão Política do Partido Socialista de Estarreja